À descoberta
À descoberta da paisagem egitaniense

Luciano Lourenço

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra


Entendeu o Senhor Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, escolher o Centro Cultural Raiano para palco do debate sobre as «Perspectivas do Desenvolvimento do Interior», o que muito honra Idanha-a-Nova e não desmerece qualquer outro local situado neste contexto de interioridade física, que das alturas do Larouco às de Montesinho se estende, por paisagens tão diversificadas, até à serra algarvia do Caldeirão.

Certamente que muito haveria a dizer sobre a multiplicidade das paisagens do interior, desde os contrastes dos grandes conjuntos aos pormenores dos pequenos matizes, os quais contribuem não só para quebrar a monotonia que a interioridade parece querer imprimir-lhes, mas também para dar beleza própria a uma vasta região onde as paisagens deslumbrantes rareiam, mas com caprichosos recantos que deleitam o visitante mais exigente.

Por vezes, a descoberta destes lugares obriga a efectuar percursos por estradas estreitas e sinuosas ou, até, por caminhos, nem sempre dos mais cómodos, que só o interesse em conhecer «curiosidades naturais» justifica. Normalmente, são obras que foram moldadas pela natureza ao longo dos tempos e cuja génese, muitas vezes, o tempo se encarregou de ocultar. O repto que lançamos aos leitores é o de nos acompanharem e, em conjunto, partirmos à descoberta de alguns desses escultores naturais (estrutura, clima, processos erosivos) que nos ajudem a entender a génese e evolução das formas de relevo de que hoje usufruímos.

Porque nos encontramos em Idanha-a-Nova, este concelho servirá de área-amostra das belas pamas cuja formosura poderá atrair visitantes e, algumas delas, pela sua raridade, são de inegável interesse pedagógico, merecendo ser integradas nas visitas escolares, contribuindo assim para uma maior divulgação e desenvolvimento do interior.

Entendemos que estas paisagens merecem ser lidas e explicadas aos visitantes, pelo que nos propomos apresentar alguns tópicos que melhor ajudem a interpretá-las no seu contexto, permitindo observar a paisagem «com outros olhos», começando por ver como se terá formado e evoluído, para depois observar a fauna e a flora que a caracteriza, escutar os sons com que nos envolve, cheirar os odores que liberta, inalar as essências, os perfumes que plantas e flores exalam, enfim, sentir a paisagem como um todo, um ente com vida e vitalidade própria, em constante mutação, que vai acompanhando e, ao mesmo tempo, se deixa embalar pelo ritmo cadenciado das estações do ano.

a rápida abordagem que nos propomos apresentar, apenas permite dar uma panorâmica geral de um circuito relativamente pormenorizado, acessível a quem se desloque em automóvel, devendo ser completado, aqui e acolá, com percursos complementares, a realizar em bicicleta e, localmente, com passeios a pé. Embora o visitante se deva manter atento ao longo de todo o circuito é, sobretudo, nos momentos de paragem, quando pode e deve desfrutar da paisagem na sua verdadeira grandeza, tanto para se deleitar na contemplação dos sucessivos planos, a perder de vista, como para se concentrar na análise de um simples pormenor, quer se trate dum detalhe duma rocha, quer seja da minúcia duma folha de qualquer espécie vegetal, quer, ainda, na corrida de uma lebre ou de um coelho, no voo duma perdiz, enfim, tantas particularidades a justificarem observação atenta e interessada!

É nestes momentos de paragem que, normalmente, surge a oportunidade de escutar a multiplicidade dos sons campestres, desde o balir dos rebanhos aos assobios do pastores ou ao ladrar dos cães que os acompanham, passando pelo marulhar do vento ao ondular nas searas ou roçando nas copas das árvores, pelo canto estridente das cigarras em tarde cálida de estio ou pelo alegre trinado das aves canoras ou, ainda, porque não?, pelo «escutar» do silêncio, deixando-nos embevecer pela calma, paz e quietude que esta paisagem é capaz de nos transmiisagens interiores, quiçá pouco divulgadas, tir, servindo, cada vez mais, de tónico adequado para nos reconfortar das agressões exercidas pelos modernos sistemas de vida, mormente quando se desenrolam em meios urbanos.

Nesta nossa vida atribulada, de «corre-corre» no dia-a-dia, cada vez mais se justificam momentos de pausa, para «carregar baterias», que, sendo passados no interior, além da sua função terápica, têm ainda a vantagem de contribuírem para o desenvolvimento desta região.

Quantos dos nossos jovens urbanos terão sido ensinados a desfrutar, a tirar prazer, das nossas belas paisagens interiores? Quantos deles já sentiram a satisfação proporcionada por uma caminhada, porventura fatigante, realizada para atingir o topo duma serra e daí se deleitarem a contemplar paisagens a perder de vista? Quantos deles, num momento de pausa, saborearam o prazer da leitura de uma obra literária, sentados numa pedra da berma do caminho, à sombra duma árvore? E quantas páginas preciosas dedicadas pelos nossos escritores à região raiana poderiam ser apreciadas. Meramente a título de exemplo referimos alguns daqueles que se referem à paisagem egitaniense: Fernando Namora (A nave de pedra; A noite e a madrugada); Carlos Selvagem (A Beira Baixa, a sua Terra e a sua Gente); Orlando Ribeiro e Hipólito Raposo (Guia de Portugal); Jaime Cortesão (Monsanto) e tantos outros.

Quantos dos nossos jovens conhecem também estes prazeres, de sabor diferente, que a vida tem para lhes proporcionar?

na nossa perspectiva, a actual desertificação do interior mais do que humana é, sobretudo, cultural. urge contrariar esta tendência, ajudando e orientando os jovens na descoberta do interior e dos seus valores.

Deste modo, além da proposta de reencontro com a natureza que a seguir apresentaremos, alicerçada na apreciação de aspectos pitorescos, por vezes mesmo imponentes, quando a rusticidade da paisagem tal proporciona, o viandante não se quedará preso unicamente aos aspectos paisagísticos, na medida em que os passeios a pé lhe permitirão estabelecer contacto com as gentes e, deste modo, ficará também a conhecer a cultura local.

O concelho de Idanha-a-Nova possui um passado muito rico, testemunhado tanto do ponto de vista arqueológico como no aspecto arquitectónico, recomendando-se a visita aos principais monumentos, a que faremos alusão, meramente a título de referência, por não se enquadrarem nos objectivos do tema proposto. Do mesmo modo, incentivamos uma visita às aldeias tradicionais, onde parece que «o tempo parou», bem como a descoberta das tradições, dos usos e costumes, das festas, feiras e romarias, enfim, da gastronomia egitanienses, outros tantos bons motivos e ingredientes mais do que suficientes para justificarem uma visita a este concelho do interior.

O roteiro que propomos pode estender-se por mais de 200 km (fig. 1) e pretende conciliar a generalidade destes aspectos com a paisagem que lhes serve de suporte, recorrendo, de quando em vez, a percursos alternativos. Diferencia-se da generalidade dos muitos guias que ultimamente têm sido editados, tanto porque procura dar uma continuidade lógica ao percurso, não andando a saltitar de local para local, os quais, em regra, são naqueles apresentados isoladamente, como porque pretende aligeirar tanto o tratamento histórico como as descrições do património edificado, neles muito abundantes, ressaltando antes o valor da paisagem e do património natural que lhes servem de suporte e enquadramento.

Por isso, em vez de seguirmos, por exemplo, a «Rota dos Castelos Raianos», ou de apenas nos quedarmos no «Triângulo turístico de Idanha-a-Velha, Monsanto, Penha Garcia», partamos antes à descoberta da paisagem egitaniense, na qual aqueles se integram.

O itinerário proposto poderá ser simplificado, se for efectuado num único dia, mas, de preferência, deverá demorar pelo menos dois, podendo, no entanto, estender-se por períodos mais alargados, dependendo sobretudo das características do visitante: disponibilidade de tempo, motivos de interesse, condições físicas e meios de transporte a utilizar.

Nestas circunstância o roteiro base está calculado para ser efectuado durante dois dias consecutivos, usando um veículo automóvel e incluindo curtos passeios a pé. Se o visitante preferir realizar observações mais minuciosas e dispuser de mais tempo, o circuito pode ser completado com passeios mais longos, a pé e de bicicleta, de preferência em BTT, que levarão os interessados à descoberta das paisagens menos acessíveis, quer se trate dos amplos horizontes de que poderão desfrutar dos cimos dos montes, quer se trate dos horizontes mais reduzidos dos fundos dosvales, mas amplamente compensados tanto pela sua riqueza faunística e florística, como pela frescura reconfortante que deles emana, devido à presença ou proximidade da água.

E, sem mais delongas, iniciemos o nosso percurso, fazendo-nos acompanhar de bons mapas e guias, para neles encontrar informações complementares das aqui apresentadas.

Atendendo a que estas Jornadas começaram no Interior Norte e continuam, depois, em direcção ao Sul, propomos um itinerário que permitirá seguir um trajecto semelhante, ou seja, entrar pelo Norte do concelho e sair, depois, em direcção ao Sul.

Admitindo que o visitante pernoitou na Cova da Beira ou a ela tenciona chegar de manhã cedo, deve tomar a EN/18 (E 802), subir à portelade Alpedrinha/Vale de Prazeres, uma «janela aberta» sobre a Raia Central-Sul, e contemplar a magnífica panorâmica que daí se vislumbra. É o local proposto para início da nossa visita, onde estabelecemos o primeiro contacto e temos uma visão de conjunto da região que, pouco a pouco, nos irá ser dada a conhecer. A vista sobre a planície é deslumbrante.
A platitude, apenas interrompida por alguns relevos residuais, é o que mais impressiona, em nítido contraste com as alturas da Gardunha, que se ergue às nossas costas. Só, depois, atentamos nas formas salientes mais afastadas, algumas delas já situadas em território espanhol.

Muitos dos aspectos da geomorfologia desta região foram estudados pela primeira vez por O. Ribeiro, sobretudo ao longo dos anos 40, encontrando-se relatados em diversos textos dispersos por várias publicações. Em 1990 apareceram reunidos no iii volume dos seus opúsculos geográficos, obra que deve acompanhar o visitante, se este melhor quiser entender a formação das paisagens com que irá deparar-se.

Com efeito, apenas daremos algumas ligeiras «pinceladas» da paisagem, tanto porque não cabe desenvolver aqui o tema, como porque é possível recorrer às obras originais, redigidas com a inconfundível maestria de Orlando Ribeiro.

Saciada a vista e com os pulmões repletos de ar puro, desçamos durante pouco mais de um quilómetro e voltemos à esquerda, pela EN 239, em direcção a Vale de Prazeres. Doze quilómetros depois, passamos por Orca e estamos prestes a entrar no concelho de Idanha-a--Nova. Ao encontrar a EN 233 voltamos à direita, passamos por São Miguel de Acha e, na Ponte de S. Gens, viramos à esquerda, para seguir a EN 353, passar por Oledo e, por fim, chegarmos a Idanha-a-Nova, onde podemos visitar os restos do castelo medieval, as Igrejas Matriz e da Misericórdia e os Solares do Marquês da Graciosa e do Conde de Idanha.

A pitoresca vila está alcandorada sobre a escarpa de falha do Ponsul, o principal acidente tectónico que atravessa o concelho, desnivelando entre 100 e 200 m as áreas situadas imediatamente a Norte e a Sul, ou seja, na nomenclatura de O. Ribeiro (p. 171), as superfícies de Castelo Branco e do Alentejo, respectivamente. Do topo da escarpa tem-se uma esplêndida visão panorâmica sobre grande parte das campanhas (campinas) da Idanha, que se desenvolvem a partir da sua base.

A falha do Ponsul é a principal de um conjunto de acidentes paralelos, cuja importância e evolução condicionou fortemente as formas de relevo. Os contrastes entre os blocos levantado, a Norte, e abatido, a Sul, são particularmente nítidos, tanto no que concerne à cobertura de depósitos, pois só localmente se conservam no compartimento soerguido, enquanto que, pelo contrário, atapetam a maior parte do degrau abatido, como no que concerne à existência de relevos residuais, de tipo Inselberg, que apenas se encontram no compartimento levantado, como teremos oportunidade de mencionar.

Uma vez admiradas algumas destas belas formas, esculpidas por obra da natureza, desçamos a escarpa de falha e, depois, paremos nas imediações da ponte da Senhora da Graça, a fim de apreciar, especialmente a jusante da ponte, agora visto de baixo, o abrupto desta escarpa granítica.

Continuemos a viagem, seguindo durante 2 km a EN 353, após o que voltamos à esquerda para percorrer cerca de 4 km e chegar à Senhora do Almortão, imortalizada no cancioneiro popular:

Senhora do Almortão

Minha tão linda Arraiana

Voltai as costas a Castela

Não queirais ser Castelhana?
 
 

É um sítio ermo, monótono e melancólico. Terra a perder de vista, com largos horizontes ondulados, de onde saímos em direcção ao Norte (Alcafozes). Passados 3 km deparamos com a EN 354 e voltamos à esquerda para percorrer um quilómetro até encontrar a EN 354-1, onde viramos à direita. Volvidos 4 km chegamos à barragem da Idanha, uma obra de hidráulica agrícola destinada a regar cerca de 7000 ha, inaugurada em 1947. 

A sua albufeira, com capacidade para armazenar 77×106 m3, cria um espelho de água, coisa rara nestas paragens, que convida à prática do lazer, nomeadamente à pesca, natação, vela, remo e outras actividades aquáticas, apoiadas por um parque de campismo.

Depois do banho retemperador, invertamos a marcha e retomemos a estrada em sentido contrário. Ao chegar à EN 354 voltemos à esquerda e percorramos 7 km até entroncar com a EN 332. Voltamos de novo à esquerda. Finalmente, depois de andar mais 6 km, chegamos a Idanha--a-Velha. As suas vetustas ruínas recordam-nos o esplendor passado da Egitânia e bem merecem uma visita detalhada.

Fazendo-nos outra vez à estrada vamos entroncar, passados 6 km, na EN 239, à entrada de Medelim, uma localidade que teve alguma importância mas, na actualidade, em franco declínio, como, aliás, sucede com a generalidade das aldeias raianas.

Voltando à direita, 15 km separam-nos de Penha Garcia, mas, à nossa frente sobressaem, agora mais próximos e a emergir da superfície aplanada sobre a qual temos vindo a rolar, dois «montes-ilhas», ou seja, o Inselberg geminado de Monsanto-Moreirinha (O. Ribeiro, p. 173), que se levanta «bruscamente acima de uma plataforma de granito mais grosseiro, com o característico recorte dos resíduos montanhosos nos pediments das regiões áridas» (O. Ribeiro, p. 191), logo, a sugerir a sua formação em situação climática bem diferente da actual, ou seja, trata--se de formas de relevo herdadas de outros tipos de clima que, no passado, se terão feito sentir nesta região.

Mas, Monsanto não é importante apenas do ponto de vista geomorfológico. Com efeito, essas suas características, desde muito cedo favoreceram a ocupação humana. O morro, hoje castelo, terá sido ocupado inicialmente por um castro lusitano. depois, a sua história foi suficientemente longa para poder ser aqui contada. Nada como percorrer a pé as ruas de Monsanto e descobrir, entre enormes penedos e gente idosa, as raízes dessa história, que os pais foram transmitindo aos filhos, contadas à lareira, nos serões das noites de invernia, ou ao luar, nas cálidas noites do estio.

Do alto do castelo, avista-se uma panorâmica única, ímpar, não só sobre as magníficas paisagens que se desenvolvem em seu redor, mas também sobre a própria vila que se lhe aninha aos pés, encastoada nos penedos graníticos. É, ainda, um bom local para (re)ler a «nave de Pedra», de Fernando Namora.

Embevecidos, regressemos à EN 239, para prosseguir viagem em direcção a Penha Garcia, acompanhando, do lado Sul, o desenvolvimento da serra do Ramiro, associada a um afloramento de rochas duras, essencialmente constituídas por quartzitos, dispostos em dobra sinclinal. Esta dobra origina duas cristas paralelas, que se desenvolvem entre Salvador e Monfortinho, prolongando-se para Espanha, com direcção geral NW-SE, de desigual importância, devido aos flancos do sinclinal não serem simétricos.

A crista principal é constituída pelas serras do Ramiro (754 m) e da Gorda (826 m), correspondendo ao flanco Sul do sinclinal. A se-cundária, acompanha o ramo Norte, e origina as serras do Carvalhal (678 m) e da Medronha (651 m). No interior da dobra, ocupando os primeiros quilómetros da concavidade sinclinal, desenvolvem-se as cabeceiras do rio Ponsul, já nosso conhecido, cujo talvegue explora a aresta sinclinal e que, depois, abandona, atravessando os quartzitos em garganta estreita, trabalho que foi facilitado pela existência de uma falha, sensivelmente orientada N-S e localizada a oriente de Penha Garcia, que desloca os quartzitos, interrompendo a continuidade da crista.

Para melhor podermos observar estes aspectos, sugerimos um passeio a pé, o qual permitirá apreciar com pormenor a disposição dos quartzitos em bancadas paralelas, inclinadas, umas mais espessas e outras mais delgadas, por vezes intercaladas com xistos argilosos.

Algumas destas bancadas apresentam-se muito fossilíferas, contendo impressões de bilobites (Cruziana) em grande quantidade e restos de trilobites (Neseuretus), braquiópodes (Orthis) e graptolitos (Diptograptus), entre outros (C. Teixeira, 1981, pp. 320-326).

muitos destes fósseis, bem como diversos aspectos da fauna e flora locais, podem ser observados seguindo o caminho que de Penha Garcia nos conduz ao interior do sinclinal, onde horizontes mais fechados contrastam com aqueles a que nos habituámos, mais amplos, mas que no conjunto contribuem para introduzir alguma movimentação numa paisagem aparentemente monótona.

Os amantes das serras e das paisagens com relevos movimentados poderão explorar, em passeios a pé e em percursos feitos de bicicleta, as potencialidades que este local privilegiado lhes oferece, alternandopaisagens de amplos horizontes, que as cumeadas das cristas lhes brindam, com a observação de pormenores, que os fundos de vale proporcionam.

Aproveitemos o sossego para, em silêncio, descansarmos uns momentos junto à barragem de Penha Garcia, a fim de recuperar forças antes de encetar a subida de regresso à aldeia. Conhecido o sítio, as condições naturais que serviram de base à implantação da empoleirada Penha Garcia, detenhamo-nos um pouco durante a sua passagem, para conhecer algo da sua história e apreciar a beleza da sua arquitectura tradicional, protagonizada por belas casas de quartzito.

Regressando à estrada, continuamos a contornar a crista quartzítica, durante os 12 km que nos conduzem a Monfortinho, podendo observar à nossa direita o degrau que corresponde à escarpa de falha, aqui muito menos abrupto do que em Idanha-a-Nova, e, por vezes, mesmo irreconhecível, quando fossilizado por depósitos. Os mais expressivos constituem três colinas abauladas e bem individualizadas: a serra da Murracha (580 m), a mais afastada, a Murrachina (514 m), numa posição intermédia, e as Pedras Ninhas (529 m), a mais próxima, todas elas constituídas por calhaus, vestígios do antigo manto detrítico que cobria toda esta vasta região. Aqui, por enquanto, a erosão limitou-se «a separá-los em três morros e a abrir, no seio destes, barrancos fundíssimos que permitem confirmar, pela composição profunda do solo, o que a superfície juncada de calhaus deixa adivinhar» (O. Ribeiro, pp. 227-8).

Passamos ao lado de Monfortinho, um nome que só recentemente foi divulgado, graças às qualidades terapêuticas das Águas da Fonte Santa, que brotam 3 km a Este, embora já fossem conhecidas dos Romanos. As Termas de Monfortinho possuem águas hipossalinas sódicas, radioactivas e são frias, estando indicadas no tratamento de intoxicações, ureia, dermatoses e outras doenças.

Porque estamos num sítio aprazível e existe um bom estabelecimento balneário, apoiado por uma considerável rede de hotéis e pensões, parece-nos um bom local para descansar e interromper a nossa viagem, por um ou vários dias, pois, a partir daqui, podemos realizar passeios a pé ou de bicicleta, tanto nas margens do Erges como com destino às serras.

Além disso, encontramo-nos numa área de caça, onde é possível observar um rico património faunístico, podendo incluso solicitar autorização, junto da Direcção dos Hotéis Fonte Santa ou Astória, para visitar a reserva de caça. Uma vez nela, guardando o devido silêncio, poderemos observar, em habitat natural, tanto veados e muflões, como outras espécies também existentes fora da reserva: javalis, lebres e perdizes, entre outras, e com um pouco de sorte, até talvez algum grifo (abutre), já pouco frequente, uma vez que se trata de uma espécie em vias de extinção.

Retemperadas as forças, depois dum sono reparador, voltemos à EN 240, para percorrer mais 14 km, após o que, voltando à esquerda, passamos à EN 332-4, para, nesta paisagem monótona, de relevo pouco movimentado, andar 5 km e chegar a Salvaterra do Extremo.

O nome parece dizer tudo. Mas, antes de a deixar, apreciemos a beleza da talha dourada da Igreja Matriz, o pelourinho e outros vestígios da grandeza perdida. Do morro, onde se erguia o antigo castelo, admiremos a bela vista panorâmica sobre o vale em garganta do Erges, profundamente encaixado, ao ponto de ser difícil divisá-lo. Esta paisagem marca um profundo contraste com a anterior, onde o relevo se apresentava aplanado, pelo que não admira que tenha sido aproveitada para linha de fronteira. Do lado de lá, restos (bem melhor conservados) do castelo, em terras de Espanha, ajuda-nos a adivinhar a posição da fronteira e, por conseguinte, do rio. O encaixe torna-se menos visível, dado o percurso sinuoso e a pouca largura do vale.

Para melhor o podermos apreciar, viremos à esquerda, logo à saída de Salvaterra e sigamos, durante 9 km, por uma estrada secundária, paralela ao rio que, por entre olivais e, depois, marginada por giestais e formações arbustivas degradadas, nos levará a Segura, onde voltamos a ser ladeados por olivais.

Com a recente abolição dos controlos fronteiriços, esta vila, encastelada num morro, perdeu a pouca importância estratégica que, por esse motivo, ainda detinha, passando a ser mais uma a viver à sombra das glórias passadas. Os restos do castelo, o pelourinho e a igreja atestam algum do seu brilho anterior. Desçamos ao Erges, que marca a fronteira, para apreciar a aspereza do vale, inserido numa paisagem agreste, cuja rusticidade impressiona.

Chegados à fronteira, não resisto a propor-lhes «um saltinho a Espanha» pois, a cerca de 20 km, sobre o rio Tejo, encontra-se «uma das mais robustas pontes que da engenharia romana subsistem na Península (de seis arcos, compr. total de 714 pés, larg. 30 pés e alt. máx. 200 pés), mandada construir pelo Imperador Trajano» (Guia de Portugal, p. 687). Trata-se de uma obra sumptuosa, sobretudo se atendermos às soluções técnicas disponíveis à época em que foi realizada, pelo que bem merece uma visita.

Depois de tomarmos um refrigerante e de comprarmos uns caramelos em Alcântara, regressemos a Portugal. Passada a fronteira, a EN 355 leva-nos, passados 8 km, a entroncar com a EN 240, onde viramos à esquerda para depois, decorridos 3 km, voltar à direita, em direcção a Toulões, que alcançamos passados 9 km.

Durante este percurso vemos, à nossa frente, bem marcada na paisagem, a escarpa de falha do Ponsul. À entrada de Toulões, virando à esquerda, rumamos para ocidente e podemos observar de perto restos da antiga cobertura detrítica, o que passará a suceder frequentemente. Depois de percorrer 5 km entroncamos na EN 332, onde voltamos à esquerda e, após andar 8 km, chegamos à Zebreira, tendo antes, sensivelmente a meio desta distância, passado pela pequena barragem de Toulica. Na Zebreira, além do pelourinho, pouco mais de artístico haverá para observar. Contudo, podemos aproveitar para avivar a memória das gentes locais, indagando junto delas histórias de guerras passadas, tradições e usos locais, tanto no que concerne à exploração comunitária da terra, como no que respeita à justiça popular.

De novo na EN 240, continuemos para ocidente e, passados 7 km, voltemos à esquerda. Seguindo a EN 353 durante 13 km chegamos ao Rosmaninhal, por onde entraram, em 1807, as tropas francesas sob o comando de Junot, e cujo nome derivará certamente dos muitos rosmaninhos (Lavandula pedunculata) então aí existentes, uma vez que hoje já são uma espécie relativamente rara nestas paragens, onde predominam giestais e estevais. O Rosmaninhal é o centro de uma área desolada, coberta por formações arbustivas, que abrigam fauna abundante, sendo, por isso, paraíso de caçadores.

Percorrendo cerca de 25 km por estradas secundárias, passando por Soalheiras e Cegonhas, a toponímia continua a ser sugestiva, penetramos um pouco mais neste «Portugal profundo», lá das bandas do Tejo Internacional, um vale de rara beleza, que se desenvolve numa paisagem movimentada, a justificar plenamente a visita, apesar da estrada ser estreita e com o piso em mau estado de conservação.

Em posição cimeira, a estrada domina os vales do rio Tejo, a sul, e das ribeiras do Freixo e do Aravil, a norte. A variedade das formas de relevo que dela se avista é deslumbrante. A paisagem aparece--nos muito movimentada, onde formas escarpadas, abruptas, estabelecem a descida para o Tejo e contrastam com as formas aplanadas que se divisam ao longe, bem como com as colinas suaves, onduladas, que atravessamos. Estas, por serem constituídas por depósitos, apresentam-se aqui e além, por vezes, profundamente ravinadas, contribuindo para também, no pormenor, dar maior movimentação às formas de relevo.

Mas, os contrastes não se verificam apenas a nível de paisagem. Se, por um lado, esta é uma área privilegiada de caça, também o é do ponto de vista da preservação da vida selvagem em liberdade, pois um grupo de jovens dedicados escolheu o Tejo Internacional para se dedicar à conservação da natureza, em profunda oposição à grande afluência de caçadores a esta área.

Voltemos à EN 353, que nos levará de novo à EN 240, onde viramos à esquerda para, depois de rodar durante 11 km, deparar com o Ladoeiro, onde, de passagem, podemos observar algumas das tradicionais casas que ainda subsistem.

E só já nos falta percorrer 8 km para chegar à ponte da Moinheca, que assinala o limite do concelho, coincidente com a garganta epigénica onde corre o rio Ponsul.

Ora, à medida que nos aproximamos da escarpa de falha, esperamos, a qualquer momento, atravessar o rio Ponsul, o que não se verifica. A escarpa de falha do Ponsul, de novo bem visível à nossa frente e que, umas vezes mais próxima, outras vezes mais afastada, sempre esteve presente na paisagem, ergue-se agora, bem diante de nós, como uma barreira vertical, um verdadeiro muro, quaseintransponível, o que, aliás, sucede sempre que, relativamente próximos, a avistamos do compartimento abatido e especialmente ao pôr do sol. A estrada, só a vence à custa de curvas e contracurvas, para tornarem a subida mais suave. Depois é a descida para o rio Ponsul, que só agora vamos encontrar, um tanto enigmaticamente, no compartimento levantado, muito encaixado num vale em garganta, como é bem marcado pelo acentuado desnível que a estrada vence até à superfície de Castelo Branco. Trata-se de uma rara «curiosidade natural» com que este rio nos brinda e fascina.

Como pudemos observar em Idanha-a-Nova, o rio corria no compartimento abatido, na base e ao longo da escarpa de falha, desenvolvendo meandros livres e, de repente, um tanto inexplicavelmente, entra, depois, no compartimento levantado, por meio de um apertado vale em garganta, para, de novo, passados cerca de 7 km, regressar ao compartimento abatido, o que, não sendo lógico, só parece possível se a falha tivesse estado fossilizada por depósitos, sobre os quais o rio terá então organizado o seu curso, antes do encaixe no compartimento levantado e da exumação da escarpa de falha, como foi comprovado por O. Ribeiro (pp. 174-5).

Com efeito, este fenómeno é designado por epigenia e a do rio Ponsul é um bom exemplo.

Mas, o Ponsul tem o condão de nos encantar com as suas belezas naturais. Por isso, à saída do concelho, como «digestivo» desta curta viagem pelo interior e para que sirva de estímulo à continuação da descoberta de novas paisagens naturais, que não se confinam aos limites dum concelho, propomos a descoberta de mais um caso, muito curioso, na evolução da drenagem, ou seja, a captura do rio Ponsul.

Com efeito, antes de este episódio se ter verificado, o rio Ponsul confluía com o Tejo mais a jusante do que actualmente, ou seja, nas imediações de Vila Velha do Ródão (O. Ribeiro, pp. 176-7).

Para, no local, encontrar os testemunhos desta evolução, ao chegar a Castelo Branco procure a EN 16-8 que o levará a Malpica do Tejo e a Monforte da Beira. Mas, se o tempo escassear, depois de passar o Ponsul vire à direita no cruzamento que o levará directamente aos Lentiscais e siga para Alfrivida. Ao passar de novo sobre o rio Ponsul tem, à sua direita, o brusco cotovelo de captura, que assinala o local onde o rio foi capturado. à sua esquerda, pode admirar o vale profundamente encaixado, que passou a constituir o novo troço de ligação ao Tejo. À sua frente, o antigo vale, agora abandonado, um vale largo, maduro, francamente aberto, correspondente a um ciclo de erosão anterior, aproveitado para construir a estrada até Alfrivida e que, mesmo depois, é possível acompanhar de perto até Vila Velha do Ródão.

Se se sente com coragem para continuar à descoberta das magníficas paisagens raianas, atravesse o Tejo e, começando pelo Parque Natural da serra de São Mamede, descubra as incomparáveis e fascinantes belezas naturais que o interior do Alentejo tem para lhe oferecer.

Só me resta desejar-lhe a continuação de uma Boa Viagem!
 
 

Referências Bibliográficas:

  • Ribeiro, O., 1990, Opúsculos geográficos, iii volume - Aspectos da Natureza, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Destacamos os seguintes artigos:
  • 1939, «Sur la morphologie de la Basse Beira», pp. 167-178;
  • 1942, «Notas sobre a evolução morfológica da orla meridional da cordilheira central entre Sobreira Formosa e a Fronteira», pp. 183-200;
  • 1943, «Evolução da Falha do Ponsul», pp. 221-238;
  • 1951, Três notas de Geomorfologia da Beira Baixa, pp. 263-287;
  • Teixeira, C., 1981, Geologia de Portugal, vol. i - Precâmbrico, Paleozóico, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.